
Uma das mais intrigantes características da inteligência humana é que ela pode ter consciência de si mesma e se automonitorar. Diferentemente de outras espécies, cada uma com sua inteligência, os humanos, ao desenvolvem suas capacidades motoras, sensórias e intelectuais, eventualmente e em razão de uma série de fatores culturais, passam a perceber que sabem, o que sabem e até monitoram essa capacidade. Essa consciência, também chamada de metacognição, é um poderoso recurso acionado nos processos educacionais. É exatamente no contexto educacional, mais especificamente na experiência escolar, que acontece um notável processo metacognitivo, relacionado à linguagem verbal, durante a aprendizagem da escrita. O que isso quer dizer?
Como todos sabem, nós, humanos, não precisamos ir à escola para aprender nossa língua: essa aprendizagem ocorre na infância, e confunde-se com o desenvolvimento físico e sensorial. Enquanto crescem, aprendem a andar, a controlar o xixi e o cocô, a reconhecer fisionomias, cheiros, sons, associar vozes a pessoas, as crianças aprendem sua língua na interação com outros falantes (pais, familiares, cuidadores, outras crianças). Essa competência, desenvolvida espontaneamente, corresponde à oralidade, diz respeito a falar e ouvir. Com o ingresso na vida escolar (ou até antes desse evento), quando se inicia o contato intencional (isto é, não espontâneo) e pedagogicamente orientado com a língua escrita, as crianças são impelidas a refletir sobre aquilo que já sabem (ou já têm), que é a língua que falam, para paulatinamente compreender o que ainda não sabem, o sistema de escrita alfabética. Repare que interessante: os pequenos, lá pelos cinco anos de idade (mais ou menos), conseguem elaborar frases (sintaxe), conjugar verbos e combinar nomes com artigos e adjetivos (morfologia) e a diferença entre “meu” e “mel”, “seu” e “céu” (fonologia). Elas sabem, mas não sabem que sabem. Essa condição de não saber é modificada no processo de alfabetização, já que nosso sistema de escrita é uma representação da fala ou, como dizem os especialistas, da pauta sonora, e para compreende-lo é necessário pensar sobre os sons que são produzidos na fala. Nessa hora é que entra a chamada consciência fonológica.
Segundo o Glossário Ceale, é o conhecimento que os falantes têm da organização da sonoridade, que, no caso da fala, se expressa nas palavras que pronunciamos. A consciência fonológica, que tem vários níveis ou modalidades, para a aprendizagem da leitura/escrita, precisa se desenvolver até um determinado estágio, que é a chamada consciência fonêmica, isto é, a percepção do fonema, que é a unidade de som a que corresponde uma letra (ou um dígrafo) e que não é facilmente perceptível, como a sílaba ou as rimas o são.
Importantes pesquisas no campo da cognição nos informam duas coisas muito importantes a respeito disso. A primeira coisa é que a consciência fonológica (principalmente a fonêmica) é um fator de predição para a alfabetização, ou seja, é uma condição necessária para aprender como funciona o Sistema de Escrita Alfabética; a segunda é que a consciência fonêmica não é atingida espontaneamente por todos os indivíduos, sendo portanto necessário que os educadores ou, no caso de indivíduos que apresentem mais dificuldades, profissionais como os fonoaudiólogos promovam atividades específicas para o atingimento dessa condição metacognitiva tão importante para o êxito da alfabetização e, por conseguinte, de toda a experiência escolar.
Dra. Joelma da Silva | Fonoaudióloga (Uniplan) e especialista em Distúrbios da Fala e Linguagem (Unyleya). Com ampla formação continuada, atua com foco em Processamento Auditivo Central, Apraxia de Fala, Gagueira, Dislexia e novas tecnologias terapêuticas, como Laserterapia e Eletroestimulação.